terça-feira, 14 de outubro de 2008

O LADRÃO QUE MORREU FELIZ

Do alto da cruz ele via boa parte de Jerusalém. Via o telhado de muitas casas, o templo, algumas ruas de sua cidade... Em sua mente passava tudo que havia feito. Fez um balanço e viu que ela foi muito mal vivida. Havia dois outros condenados com ele.
Havia um que o encabulava muito. Um nazareno que fazia muitos milagres, que diziam dele ser o Messias (Ungido). A elite o odiava, os Fariseus, Saduceus, Zelotes e até os essênios, mas estes últimos eram mais quietos. Ele sempre mostrou que suas obras eram más. O nazareno era corajoso. Havia visto ele dar um lindo discurso à porta do templo; viu também quando ele expulsara do templo os vendedores de animais, cambistas, que trocavam moeda e vendiam os animais para os sacrifícios predito por Moisés. Apesar dos animais serem usados na adoração no templo, a forma como isso acontecia era de uma superficialidade tremenda. A religião tornou-se muito fria e formalista. Lembrava muito bem das palavras que ele dissera: “A minha casa será chamada Casa de Oração, e vós a tendes transformado num covil de ladrões.” Ele fez isso com tanta autoridade que ninguém ousou contrariá-lo ou dizer que ele está errado. Parece que foi o profeta Isaías quem profetizou que ele faria isso. Em um salmo está escrito: “O zelo da tua casa me devora.”
O que se falava do nazareno era que fizera muitos milagres, sinais, maravilhas tremendas. Nem Elias fez igual.
Eu e meus amigos já reclamamos tanto, mas esse homem nenhum mal fez. Os rabinos ensinavam que o Messias morreria pelo povo judeu, que viria da tribo de Judá, na Judéia. Ele parece que ter o perfil certo. Quem mais faria o que ele fez? Ressuscitou muitas pessoas, curou cegos, aleijados, expulsou demônios de muita gente. Dizem que ele expulsou sete demônios de Maria Madalena. Quem mais faria isso? E os milagres que fizera, multiplicando duas vezes pão e peixe e alimentando uma multidão de milhares de pessoas. É mesmo o Messias. Todos os profetas falaram dele. Moisés mesmo escrevera que viria um profeta semelhante a ele, dando a entender que seria grande em obras. Porém Moisés não fizera nada do que ele fez. Não chega nem perto. Só Ele, o Ungido, faria essas obras. Nunca na História da humanidade alguém abrira os olhos a um cego. Ele fez isso. Ouvi dizer que curara dez leprosos de uma vez só. É o Ungido, o Messias. Só ele pode me salvar, pensara o ladrão. Ele pode me libertar do pecado.
Depois de pensar tudo isso, o ladrão, arrependido de tudo que fez, estava agora arrependido segundo a tristeza que Deus coloca no coração do homem. Está consciente de ser um pecado e que precisava de salvação. Ficou com vontade falar com ele, lhe fazer um pedido. Queria libertação. O que ele ganharia fechando o coração? Para onde iria em pecado? O inferno seria o castigo. Então, com muita dificuldade ele começou a articular algumas palavras: “Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.” Seu coração estava apreensivo. Qual seria a resposta? No último momento de sua vida teria alguma chance para ele? Desprezou a Deus durante toda a sua vida e agora será que poderia ser salvo? Era a dúvida do ladrão. E isso era como uma tortura em seu espírito. Mas algo maravilhoso estava para acontecer a ele. Pouco segundos depois o Messias articulou uma resposta: “Em verdade, em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.” Aquilo soou para ele como uma notícia de um oásis a quem estava perecendo num deserto causticante de pecado e iniqüidade. Para ele, que estava preste a ir para o inferno, era uma notícia maravilhosíssima, sem tamanho. Um leve grande sorriso iluminou a face daquele ladrão, como quem está sentindo um prazer sem tamanho. A dor que ele estava sentindo não era nada diante daquilo que no seu interior se formara. Ele agora tinha a promessa de ir para o Paraíso! Seu amigo continuara zombando, mas ele estava agora numa outra dimensão. Havia se arrependido e acabara de ser salvo. Estava limpo. Estava feliz. Aqueles momentos em que vira o Messias e fora salvo por ele valeu por toda a sua vida que viera desgraçadamente, longe de Deus, alienado da salvação. Era como se ele tivesse nascido de novo, do mesmo jeito que Jesus dissera a um mestre de Israel. Era um bebê. Não se sentia mais como um ladrão. Agora ele se sentia um servo de Deus, como um justo. Estava indo embora para o Paraíso. Quando morreu ele morreu feliz.