quarta-feira, 15 de outubro de 2008

GROTESCAS AVENTURAS NO OSVALDO CRUZ


Tenho ficado com meu pai esses dias, no HUOC (Hospital Universidade Osvaldo Cruz).Se tem uma coisa que eu não gosto é o tal do hospital.Quase ninguém gosta, nem os doentes. Meu pai foi operado há uns dez anos, no Memorial São José, em Recife, e precisou ficar internado no Osvaldo Cruz, por complicações no coração.Ele havia colocado ponte de Safena, quando foi operado no hospital dito acima.Esse tempo todinho ele não teve nada, mas de um ano para cá, já foi socorrido umas três vezes.É muito chato, isso.
Foi numa Sexta-feira que ele foi socorrido.Era três horas da tarde.Logo depois que eu saí de casa, ele começou a passar mal.Eu já estava no centro da cidade quando ele foi socorrido.Minha cunhada falou que meu irmão o levou para o Osvaldo Cruz.Ficou internado no mesmo dia.Minha irmã ficou o dia e a noite.Não teve nenhuma piora, graças a Deus.
O corredor que ele ficou tem o nome de José Ribamar.Nele há muitos quartos e em cada quarto no mínimo dois pacientes.Há aqueles que tem quase dez pacientes, todos em condições críticas.No final há uma UTI, onde se encontram alguns pacientes em estado quase terminal.Chamou minha atenção um que há dias não chegou nem sequer um parente para visitá-lo.Parece um desprezado.Os médicos não saem de perto dele um só instante.A maioria são estudantes sem nenhuma experiência.Ficam lá, como urubus adejando sobre a carniça.Os acompanhantes têm direito a três refeições diárias.Só comi algumas vezes, pois tenho um pouco de nojo dessas comidas de hospital.As acho nojenta demais.Pode ser exagero meu;pode ser que essas que a gente come nos restaurantes por aí seja pior .Dizia um amigo meu que quando ele trabalhava num restaurante como cozinheiro, fazia muitas comidas nojentas, como escarrar na carne, e os clientes ainda elogiarem por causa do sabor “gostoso” da comida.Certa vez fui ao refeitório do hospital e vi aquele caldeirão de papa, já no fim, pois não deu pra quem quis, a comida.Não fez nenhuma diferença pra mim, pois não comeria de jeito nenhum.Outras coisas, sim, mas papa e sopa, só em casa.Não gosto de comer nem em restaurante nem em hospital;nenhuma comida se compara à que a gente come em casa.Minha irmã também teu o maior nojo;prefere ficar com fome.Na hora marcada, entra uma mulher conduzindo um carrinho cheio de comida do hospital. Papa, sopa, café leite, bolacha e pão.Tudo de uma vez não, claro. Lá pelas oito horas é o lanche:um copo de leite ou chá, um pãozinho e umas quatro bolachas Cream Cracker.A mulher que entrega tem uma cara muita fechada, como diria um dos pacientes,a mim.Não dá nenhuma vontade de começar um diálogo com ela.Ela pergunta se queremos chá ou leite;aí, ela pega uma fatia de melão com as mãos lisas, sem nenhuma luva, e dá às pessoas.Achei este ato dela uma nojeira.Meu pai nunca come este melão, e nem eu.Ás vezes eu me pergunto se não sou luxento demais.Talvez não.Sou pobre, como todos sabem, mas não sou obrigado a comer toda porcaria que me dão.Às vezes quem ia era uma mocinha de seus vinte e poucos anos. Ela tinha uma aparência de adolescente.Quando eu fui ao refeitório jantar certa vez, eu a vi coçar as partes íntimas sem a menor cerimônia;depois foi pegar na comida.O refeitório tem umas seis mesas compridas, com cadeiras de ambos os lados.Na parede há uma TV e alguns quadros impressionistas ou expressionistas, não lembro mais;há também fotos de dois tubarões.Quando cheguei lá ainda estava passando Malhação, na Globo.Havia cerca de doze pessoas comendo.Tinha arroz doce, pão, café, e sopa.Comi arroz doce, pão e café, foi o jeito; havia bolachas, também.Fiquei de alerta, para ver se não achava uma mosca, ou coisa parecida.Só não comi sopa, mas abri uma exceção para o arroz doce.Ou comia, ou a fome me assolava.Como detesto passar muito tempo sem comer, resolvi me submeter à “tortura”.Não doeu nada.A comida não é suja, como as pessoas falam.Não.Orei e Deus santificou.Os doutores não chegam por aqui.É difícil vê-los.Pela manhã ainda aparecem, mas à noite, nem um sequer, a não ser que haja alguma emergência.Apenas na UTI;e estudantes ou residentes.O local onde meu pai ficou é conhecido com setor José Ribamar, ou Emergência II. Não pára nunca, há sempre enfermeiros e médicos conversando.Num local onde o silêncio é primordial, eles são os primeiros a quebrá-lo.Já três pacientes ficaram no quarto com meu pai.O terceiro é o pior de todos, não conversa com ninguém, nem sequer o acompanhante.Chatice!E mal-educados, que são!Cada tipo!Eu oro para que meu pai saia logo.Será um alívio para todos nós.
As visitas são às três horas; de quatro horas acaba.Tem um comunicado avisando que na pode entrar com comida, mas o pessoal sempre dá um jeito.Brasileiro é brasileiro.Há um basculante que abre para o pátio, por ele é que o pessoal entra com a comida.Ninguém impede a criatividade do povo.
Tudo que a gente passa em um hospital é um pouco traumatizante.O melhor é fazer de tudo para não vir para cá.Peçamos a Deus esta graça.Ele terá misericórdia de nós.