quarta-feira, 15 de outubro de 2008

ELE ERA DO DEOPS!


Devido ao trabalho que faço, tive que levar um policial civil a um escritório. Começou a conversar sobre algumas coisas. Política, se não me engano. Deu uma opinião sobre Lula, sobre os políticos de modo geral, e mencionou o nome de um prefeito e um deputado, os dois da nossa Região Metropolitana. Falou que o tal prefeito “era muito anarquista na época da Ditadura. Disse que as coisas estavam muito fáceis hoje. Teve saudade da época de chumbo. Logo eu, que detesto esses militares que fizeram todas essas barbaridades na época da Ditadura. Como cidadão eu fiquei contra a opinião desse policial.
O DOEPS (Departamento Estadual de ordem Política e Social), DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações), e o famigerado CCC (Comando de Caça aos Comunistas), mataram muita gente, principalmente os estudantes, que, motivados pela UNE (União nacional dos Estudantes), protestaram terrivelmente contra os militares, algozes dos brasileiros até 1985, quando terminou a Ditadura no Brasil, detonada em 1964.Eu, que sempre lia matérias sobre esse período negro de nossa história, sempre tive vontade de saber quem eram esses tão temidos policiais do DEOPS. Aconteceu mais do que isso, eu me deparei com um, cara a cara e me contando as atrocidades que fazia. Disse que deu muito na cara desse tal prefeito, que já foi deputado em nosso estado. Falou de um senador, que onde vê esse tal policial, balança a cabeça para ele, como quem diz que não esqueceu de nada do que ele fez. E ele me contava essas coisas sem um pingo de remorso. Falou de outro senador, que fazia, na época, o que era comum, por causa da Guerra Fria: jogo duplo. Se metia no meio dos estudantes e alcaguetava os amigos aos policiais do DEOPS. Que covarde! Ainda bem que não voto mais nele faz tempo– não sabia desse vício dele – por sua frieza diante dos problemas sociais de nossa sofrida população. Agora ele faz parte do recém-criado DEM (Democratas), partido que está cada vez mais ganhando nome, imitando os americanos, que há muito tempo têm um partido com esse nome.
Fiquei imaginando quantas maldades aquele homem deve ter feito o ex policial, quantas mães deixou sem os filhos, e quantas ficaram viúvas. Pouca gente sabe que no antigo prédio da SSP morreu muita gente sob tortura. Muita gente sofreu agruras ali. Essas histórias são escondidas da maioria da população. Quem quiser saber mais detalhes, leia um livro chamado “O CASO EU CONTO COMO O CASO FOI– DA COLUNA PRESTE À QUEDA DE ARRAES”, de Paulo Cavalcanti, editora Alfa-Ômega e “1968, O ANO QUE NÃO TERMINOU”. Muito bons. Na Casa da cultura, que já foi uma prisão, houve muitas torturas e mortes também. Eu ia citando o que me lembrava desse livro que referi, e o dito cujo ia confirmando tudo. Parece que um remorso corroía a alma dele, fazendo-o ter necessidade de contar o que fez, como um vômito da alma. Cheguei a ter um certo medo desse senhor, de mais ou menos uns cinqüenta e poucos anos, ou mais, talvez. Prosseguimos viagem com ele contando as coisas referentes ao seu tempo de policial civil do DEOPS. Disse que deu muito na cara desses políticos, dos quais fiz menção. Ele, ao mesmo tempo que aparentava um certo arrependimento (aparentava, repito), falava do seu tempo de torturador com uma frieza mordaz. Que sujeito!
Eu queria perguntar mais, saber mais detalhes, mas acabei desistindo da ideia. O ambiente não era muito propício a isso. O que sei, foi dos livros e revistas que li. Nunca tinha conversado com um sujeito desse antes. Conversei com uma vítima, certa vez, mais ele não disse muitas coisas, só fazia uma referência por cima. Só falou para mim que conhecia o tal Cabo Anselmo, o traidor. Não lembro da fisionomia dele, só desses sórdidos detalhes daquela alma tão atribulada. Espero que esse policial um dia encontre a Cristo, o único que pode livrá-lo do tormento em que ele vive.